A história dos bairros Santa Felicidade e João de Barro I mostra um outro lado do crescimento de Maringá. Embora a cidade seja conhecida pelo planejamento urbano, pela qualidade de vida e pelos bons indicadores sociais, seu desenvolvimento também foi marcado pela divisão social, pelo afastamento das famílias mais pobres e pela dificuldade de acesso à terra.
Esses bairros revelam a face menos conhecida da cidade planejada, mostrando como certas populações foram empurradas para as periferias e viveram realidades bem diferentes do restante do município.Mais do que bairros populares, o Santa Felicidade e o João de Barro I são frutos de políticas de habitação, esforço dos próprios moradores para erguer suas casas, trabalho comunitário, cultura e resistência. Ao longo de quase 50 anos, a comunidade criou um forte sentimento de união, fortaleceu redes de ajuda mútua e desenvolveu formas de combater o esquecimento e conquistar o seu espaço na história da cidade.
A CIDADE PLANEJADA
Fundada em 1947 a partir do projeto do engenheiro Jorge de Macedo Vieira para a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP), Maringá consolidou-se no imaginário coletivo como um modelo de modernidade e planejamento urbano no Norte do estado.

O Plano Original
Projetada pelo engenheiro Jorge de Macedo Vieira para a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP), a cidade dividiu-se em oito zonas urbanas. Sendo que a Zona 03 (Zona Operária) — foi destinada aos trabalhadores de menor renda, perto das áreas industriais e ferroviárias.

Adensamento Populacional
Nas décadas de 1950 e 60, a riqueza do café atraiu milhares de migrantes. Esse crescimento disparou com a modernização do campo e a severa "geada negra" de 1975, que provocou um forte êxodo rural. Entre 1960 e 1970, mais de 50 mil novos moradores chegaram à cidade.

Ocupações
Para absorver essa população, surgiram novos loteamentos populares,diferente do centro planejado, essas áreas tinham ruas estreitas, terrenos menores, pouca arborização e escassez de serviços públicos. A expansão urbana não foi suficiente e ocupações precárias começaram a surgir, ao todo foram registradas 4 favelas e 11 cortiços.

"Desfavelização"
Com o surgimento das ocupações em áreas centrais e fundos de vale, a administração pública passou a enxergar essas populações como uma "ameaça" à estética da cidade idealizada, adotando políticas de remoção forçada e construção de conjuntos habitacionais (em vermelho), foram 11 conjuntos aprovados até 1971.
O BAIRRO SANTA FELICIDADE

Casas do Santa Felicidade na primeira etapa
fonte: Garcia, 2018
Na década de 1970, o Núcleo Habitacional Santa Felicidade foi criado através do Programa de Financiamento de Lotes Urbanizados (PROFILURB), financiado pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), para abrigar famílias removidas de 14 ocupações populares de Maringá, incluindo regiões como a Vila Bosque e o entorno da Zona 2. Essa mudança liberou áres nobres da cidade para o interesse imobiliário.
O bairro foi construído na região sul, a cerca de 5 km do centro e no limite do perímetro urbano de Maringá. O Santa Felicidade foi implantado no sentido oposto para onde a cidade crescia e isolado por um fundo de vale, para chegar ao local os moradores precisavam passar pelo Córrego Moscados, mas esse era só o início.

Mapa esquemático localização do Conjunto Habitacional Santa Felicidade
fonte: BrCidades Maringá
CONSTRUÇÃO
A construção das casa foi feita em três etapas: em 1975 foram entregues 32 casas, em 1985 mais 36 unidades e em 1986, a maior entrega, com 178 moradias, somando 288 habitações no total.
MORADIA
As residências tinham apenas 36 m² e eram entregues com estrutura mínima: apenas as paredes externas, o teto e um banheiro. Divisões de quartos e salas precisaram ser feitas pelas próprias famílias.
COMUNIDADE
Através de mutirões, troca de materiais e apoio mútuo entre vizinhos, o Santa Felicidade deixou de ser apenas um conjunto de casas e transformou-se em um território de forte identidade e pertencimento.
Além das dificuldades de infraestrutura, as famílias conviviam com o medo de despejos por falta de documentação de posse das casas. Para combater essa insegurança, criaram em 1982 a Associação de Moradores do Santa Felicidade, que liderou as conquistas por regularização fundiária, creche e centro esportivo. A forte presença afrodescendente também marcou o bairro, construindo a identidade cultural e o sentimento de união que permanecem até hoje.
O BAIRRO JOÃO DE BARRO I
A expansão da periferia sul continuou em 1990 com a criação do Conjunto Habitacional João de Barro I, construído por meio de mutirões dos moradores e financiado pela Companhia de Habitação do Paraná (COHAPAR) o bairro foi implantado ao lado do Santa Felicidade para também atender famílias de baixa renda. A lógica era a mesma: um bairro distante do centro e sem a infraestrutura e os serviços básicos necessários, sendo encarado na época como o "fim da cidade".
A diferença na forma de construção das casas, com o sistema de mutirão, permitiu que o trabalho coletivo fortalecesse o sentimento de pertencimento e o orgulho de ver o bairro nascer do próprio esforço. Diante da falta de asfalto, transporte e serviços públicos, a ajuda mútua e a solidariedade uniram as famílias dos dois bairros, consolidando uma comunidade forte e integrada.

Moradores em mutirão para construção da Praça Zumbi dos Palmares
fonte: acervo Paulo Bahia

PERMANÊNCIA, IDENTIDADE E COMUNIDADE
Com o passar dos anos, os bairros Santa Felicidade e João de Barro I viraram os principais pontos de cultura e referência para a população afrodescendente de Maringá. Muitas das famílias que foram removidas de outras áreas nas décadas de 70 e 80 se estabeleceram ali e ajudaram a construir uma história forte de resistência e orgulho. Para combater o esquecimento dessa trajetória na cidade, os próprios moradores criaram espaços para valorizar a cultura afro-brasileira, tendo como maior símbolo a Praça Zumbi dos Palmares.
O PAC-ZEIS SANTA FELICIDADE

Mapa esquemático configuração dos bairros Santa Felicidade e João de Barro I
fonte: BrCidades Maringá
Nas décadas de 1990 e 2000, o crescimento de Maringá alcançou a zona sul. A expansão da cidade trouxe melhorias, novos acessos e serviços, mas também aproximou condomínios fechados e loteamentos de alto padrão dos bairros Santa Felicidade e João de Barro I.
Essa transformação criou um grande dilema: ao mesmo tempo em que os bairros ganharam em infraestrutura, a sua permanência ali passou a ser vista pelo mercado imobiliário como incompatível com a valorização da região. Para pressionar a comunidade, surgiram discursos preconceituosos que associavam os bairros populares à violência e ao atraso, gerando novos desafios e disputas para que os moradores continuassem garantindo o direito ao seu território.
Assim, em 2007 a intervenção do PAC-ZEIS Santa Felicidade prometeu transformar o Santa Felicidade com obras de saneamento, infraestrutura e equipamentos públicos. No entanto, o projeto refez antigas marcas de segregação: para aumentar os lotes, 72 famílias foram removidas para áreas distantes, enfraquecendo vínculos comunitários históricos.
Apesar de viabilizar obras como o CAPS, a reforma do CRAS e o Centro de Convivência, muitos espaços — a exemplo de quadras esportivas e barracões — acabaram abandonados ao longo do tempo. O maior símbolo dessa separação foi a construção de um muro de 400 metros de extensão e 5 metros de altura na Avenida Cerro Azul,uma barreira física financiada com recursos públicos que isolou e tentou esconder a comunidade do restante de Maringá.

Memória, resistência e território
Diante dos desafios urbanos, o Santa Felicidade e o João de Barro I responderam com arte, cultura e união. Quatro grandes iniciativas marcam essa trajetória: o Centro Cultural Jhamayka (2001), pioneiro na promoção da cidadania afro; a criação do Corredor Cultural Ubuntu (2023), que transformou os bairros em roteiro oficial de turismo comunitário; o projeto Muros que Unem (2024), que reuniu 30 artistas para transformar o muro segregador do PAC em uma galeria de grafite a céu aberto; e o Museu da Vilinha (2025), um espaço digital (@museudavilinha) criado pelo Centro Jhamayka em parceria com o curso de Geografia da UEM para preservar a memória local, hoje reconhecido pelo Ministério da Cultura.
Essas conquistas provam que a história de Maringá vai muito além dos planos urbanísticos oficiais. O Santa Felicidade e o João de Barro I mostram a força dos moradores em transformar espaços de exclusão em territórios de pertencimento, cultura e resistência.
a história dos bairros não acaba aqui
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